Sobre o VII CONGRESSO ABRACE – Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas

A Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas realizou o VII Congresso ABRACE sob o tema “Tempos de memória:Vestígios, Ressonâncias e Mutações”, na UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul em Porto Alegre, de 08 a 11 de outubro de 2012.

Durante os quatro dias de congresso ocorreram debates relacionados à relação entre memória e criação; memória e re(apresentação); a memória da arte efêmera da cena.

No GT Pedagogia das Artes Cênicas apresentei este ano uma comunicação chamada “Onde, quem, o quê: Pedagogia, pedagogos e Jogo Teatral”, refletindo sobre uma das facetas do trabalho que desenvolvo no campo da formação artística de pedagogos(as).

Dentre tantas outras palestras excelentes, gostaria de comentar sobre uma conferência que gostei especialmente: “Memória(s) de todos os lados”, proferida pelo Professor José Antônio Sanchèz.

José Antônio Sanchès Martínez é professor da UCLM  − Universidad de Castilla-La Mancha, Espanha, no Departamento de Historia del Arte, da Facultad de Bellas Artes de Cuenca.

É autor de numerosos textos sobre teoria e história das artes cênicas e dos livros “Brecht y el Expresionismo” (Cuenca, 1992), “Dramaturgias de la imagen” (Cuenca, 1994, 1999 y 2002), “La escena moderna” e El arte de la danza y otros escritos de Isadora Duncan” (Akal, Madrid, 2003). Editor do periódico “Desviaciones”.

"Início da conferência"

 

 

Em sua volta a Porto Alegre após 15 anos, o professor José Antônio Sanchès tratou nesta conferência sobre algumas de suas ideias sobre a necessidade muito grande que existe hoje de recorrer à memória para se buscar um enraizamento. Baseou-se em autores como Jesús Martin Barbero, Milan Kundera, Walter Benjamin, Giorgio Agamben, entre outros, para demonstrar que o enfraquecimento de nossos apoios identitários está gerando um desejo incontrolável do passado. Nossa febre de memória é uma expressão da necessidade de ancoragem temporária.

Ele afirmou:

Tudo se mistura nas memórias, mas há uma coisa de verdade que determina quem somos e determina nosso pensamento.Se você tentar olhar para as memórias com clareza, não consegue. Mas elas determinam quem são as pessoas, nos condicionam.A memória é vinculada a um lugar físico e a pessoas, mas ao mesmo tempo é desvinculada e misturada. Isso é paradoxal e torna a memória um aspecto muito importante para a criação cênica.”

"José Antônio Sanchès e Marta Isaacsson de Souza e Silva"

Na foto com Marta Isaacsson de Souza e Silva.

 

O professor discorreu sobre algumas de suas experiências de escrever a respeito de trabalhos de dança contemporânea como, por exemplo, sobre o último espetáculo da companhia catalã “Mal Pelo” (criada em Janeiro de 1989 por Maria Muñoz e Pep Ramis), “He visto caballos”.

Este espetáculo foi criado a partir de um livro − “From A to X”− que John Berger generosamente enviou a Maria Muñoz e Pep Ramis. O manuscrito deste livro serviu de base de trabalho para o espetáculo que é uma exploração de diversas linguagens com palavras, metáforas, teatro, poemas, vídeo, movimentos e iluminação unidos na relação entre um homem e uma mulher que não podem estar juntos, apesar de seus desejos.

Foto de Jordi Bover do espetáculo He visto caballos

Foto de Jordi Bover do espetáculo “He visto caballos”, da Companhia Mal Pelo.

 

Sobre “He visto caballos” (2008), José Antônio Sanchès escreveu o artigo “Caligrafía de Enero: sobre cuerpo, tierra y memoria” (2009), do qual extraí este fragmento:

 “Toma mi caballo / y sacrifícalo / para que, cual guerrero tras la derrota, yo camine / sin sueños ni emociones…

La poesía, como el teatro, permite conversar con los muertos. Es un espacio de comunicación resistente a las bombas; la tecnología más poderosa del más inmoral de los ejércitos queda desconcertada frente a la fragilidad del poeta. La palabra resiste. Resiste también el cuerpo: incluso desgarrado, transfiere su potencia a otros cuerpos.”

(fragmento de “Caligrafia de Enero”, escrito por José Antônio Sanchès em L´animal a l`esquena, Celrá, entre 14 e 18 de janeiro de 2009)

José Antônio Sanchès pergunta, em seguida: “O que é o teatro? A suspensão da temporalidade que, coletivamente, leva-nos à sombra? […] E a experiência? Onde foi a experiência? Onde a dor real? O amor é real? Nunca existiu individualmente? Por acaso o escritor não a construiu somando um feixe de vozes, olhares, gestos rígidos, tremores?”

 

 

Transcrevo algumas de suas falas, de acordo como as registrei no momento:

“A memória só pode ser representada no momento dos sintomas. Sua origem é desconhecida. Ela surge nos sintomas, mas surge como um anacrônico, onde diferentes temporalidades se entrelaçam.”

“Muito artistas contemporâneos buscam a experiência na memória e fazem tipos distintos de viagem. Alguns buscam suas origens, outros convidam pessoas que viveram situações a subir ao palco e atuar, relatando suas vivências. Outros fazem viagens mais curtas, mas com a mesma distância.”

“Não há memória global porque não há um corpo global, nem um território global. Mas há uma acumulação de histórias, ligadas às individualidades. Temos muitas histórias. Histórias ligadas a indivíduos, a individualidades. Essa memória global – que não existe – é compartilhar as memórias individuais.”

“A experiência é uma contradição. Somos pobres em experiência porque corremos menos riscos. Os artistas procuram histórias para encenar porque os protagonistas das histórias foram aqueles que viveram mais experiências, saíram dos espaços de proteção, foram trabalhar fora dos circuitos de segurança e viveram dor, doenças, guerra. O artista constrói discursos de subjetividades que podem ser úteis para as pessoas. Não precisamos nos voltar para as situações nas quais tivemos experiências de dor. A ideia é construir uma cotidianeidade onde a experiência seja possível. É para isso que Benjamin escreve que a experiência é ligada à viagem. Mas as pessoas que resistem à lógica do lugar também viajam.”

Ao final fomos conversar um pouco com o professor Sanchès: eu e a querida Biange Cabral − Beatriz Ângela Vieira Cabral, diretora de Artes Cênicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).

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