Trauma de Escola nº1. Sebastiana.

Trauma de Escola.

Escrevo para pensar… baseado em fatos reais, contados pela Professora Sebastiana Maria Lucas, em Setembro de 2012, durante uma aula minha na pós graduação.

Um dia Dona Sebastiana foi convocada a assumir um grupo do 4º ano que estava sem aulas. Algo havia acontecido à professora titular daquela turma. Ao entrar em sala, as crianças começaram uma balbúrdia. Uma das meninas veio até ela e disse:

− Você está pensando que vai dar aula pra gente, velha coroca?

Sebastiana silenciou. Sebastiana sentou-se. O protesto durou duas horas. Sebastiana deixou. Porque afinal, a palavra vale prata e o silêncio vale ouro. Durante esse tempo – de perturbação no universo da infância e de paciência no universo de Sebastiana −, a professora teve a ideia de elaborar algumas questões, especialmente para aquelas crianças. Elaborou quarenta e duas.

Há certas ocasiões em que os minutos parecem ser horas. Há ansiedade, aflição, medo. Mas não para Sebastiana, que não tem urgência. Nem na mocidade, já tão distante, não lhe fora permitido ansiar. Aprendeu que quem em caminho leva pressa, em caminho chão tropeça. Para estudar as primeiras letras fora obrigada a esperar… ter esperança. Começou somente aos trinta e dois anos de idade. O brinquedo de criança não se lembra se existiu. No dia do seu aniversário de seis anos pediu à mãe para ganhar sua primeira boneca; recebeu, ao invés, uma enxada, e foi levada a trabalhar na roça com os irmãos mais velhos. Trabalhou. Trabalhou. Aguardou.

O tempo tarda, mas não falha. A mesma menina se dirigiu a ela, após o tempo de revolta e catarse:

− Você tá querendo ganhar salário só de ficar com a bunda grudada na cadeira? Nós queremos aula!

− Mas vocês disseram que não me aceitavam. Agora vocês querem aula?

− É. Agora queremos. Disse a menina, que exercia influência sobre o comportamento dos outros, assim, com o modo de ter o corpo falando para uma, mas dominando o todo.

Sentaram-se as crianças.

Sebastiana decidiu primeiro contar uma história. Fala mansa. Voz suave. Gesto inofensivo. [as crianças estranhavam… O que é isso que vejo? O que ouvem meus ouvidos? O que cala a minha voz? O que adormece meu corpo?] A infância se recuperou. Depois, Sebastiana ofereceu a elas as questões que havia elaborado. Responderam. Juntos.

Por fim, se puseram a conversar outras coisas. E escutando as crianças, Sebastiana fez uma descoberta. A professora anterior os ameaçava com peixeira e facas. Gritava. Surtava. Ofendia. Colocava objetos pontudos em suas jugulares.

Como que querendo colocar o relato acima de toda a prova, disse um menino, dedo apontando:

− Professora, abre a porta do armário ali.

Sebastiana abriu. Não encontrou materiais pedagógicos, nem lúdicos, nem artísticos, nem poéticos, nem oníricos, nem libertadores.  Seu olhar topou com uma peixeira, duas facas e um espeto de churrasco.

Dona Sebastiana desceu as escadas do prédio escolar, ao terminar o período de aula, para falar com a diretora. Saber se ela sabia. Descobrir, a esta altura, adiantaria? Responde a diretora:

─ Sebastiana, a professora que você agora substitui, foi afastada e presa. Porque matou o marido. Com quatro facadas.

Uma resposta em “Trauma de Escola nº1. Sebastiana.

  1. Quanta distorção para a educação, ainda bem que havia esperança e salvação na construção dessas crianças. Enfim Sebastiana trouxe a libertação!!!!

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